Viagem no tempo

Olá! Hoje vou contar para vocês algumas aventuras do Dom Valente nesse último ano. Essas histórias são conhecidas de muitos, entretanto, tem gente nova acessando o site – que também é fresquinho –  e essas precisam entender um pouquinho de todo esse processo para, então, acompanharem as novas proezas.

A história do Matheus começou no dia 30 de janeiro de 2015, às 8:45 da manhã! Como já expliquei num post Como tudo começou, o começo foi difícil e de muitas incertezas… Porém, a força do nosso valente sempre foi notória e animadora.

As travessuras já iniciaram na UTI neonatal do Kingston General Hospital – CA.  Na incubadora ele não parava. Inúmeras vezes as enfermeiras o “resgataram” dos deslizes para baixo ou para os lados.  Além disso, os fios dos equipamentos de monitoramento e oxigênio eram seus parceiros de traquinagem. Com suas mãozinhas pequenas e frágeis, ele se emaranhava entre os fios e os arrancava… Resultado disso? Luvinhas de meia para conter as artes do Dom! Ou melhor, luvinhas de meia presas com fitas.

Os dias na UTI foram intensos para todos nós. Nos primeiros 9 dias não podemos pegar o Matheus no colo e todo carinho era feito pelas “janelas” da incubadora. Por ali também o alimentávamos e trocávamos a fraldinha. Os dias passaram e Matheus pode vir para nossos braços! Que alegria! Não queríamos largá-lo nunca mais! Devolver nosso pequeno para a incubadora era realmente dolorido. Inúmeras vezes me senti tentada a fugir com ele nos braços!IMG-20160306-WA0013 IMG-20160306-WA0014 IMG-20160306-WA0015

Com 11 dias de vida ele foi transferido para o mini crib, um bercinho fofo e mais espaçoso. Nesse dia  ele vestiu roupinha pela primeira vez! A enfermeira que o transferiu para esse berço era muito carinhosa. Ela fez uma pulseirinha de miçangas com o nome dele, refez o cartão de nascimento e pendurou o elefante de pelúcia no suporte do soro.IMG-20150210-WA0015 IMG-20150210-WA0016

Os dias passavam e Matheus surpreendia a todos! A contagem de plaquetas estava normalizada após 3 transfusões, as hemorragias estavam contidas, as infecções foram controladas e o medicamento para conter um quadro de tremelique foi suspenso após o segundo dia de uso. Ele permanecia na UTI porque tinha eventuais  baixas na saturação, as quais estavam sendo investigadas pela equipe. Essas quedas duravam poucos segundos, mas eram motivo de preocupação.

Saturação – A saúde de um bebê pode ser determinada de várias maneiras, seja pela aparência ou por situações clínicas que requerem observação detalhada. A mensuração da saturação de oxigênio pode indicar algum problema de saúde e é parte de uma avaliação dos sinais vitais. Na UTI  é mais ou menos assim: olhos no bebê e ouvidos atentos ao bip da saturação!

A saturação de oxigênio mede a quantidade de hemoglobina no sangue que está saturado com oxigênio. A hemoglobina é um componente dos glóbulos vermelhos do sangue, que se liga com o oxigênio e o transporta para os tecidos periféricos. Um bebê saudável, que nasce a termo, deve ter saturação de oxigênio de 95 a 100%. Algumas instituições, no entanto, têm parâmetros ligeiramente diferentes.

O oxímetro controla a saturação de oxigênio no sangue do bebê. Esse aparelho consiste numa fonte de luz infravermelha,  colocado no pé ou mão da criança e conectado ao monitor. No caso do Matheus era no pezinho. O oxímetro só podia ser desconectado no banho.

Ah o banho! Matheus começou a tomar banho de verdade, de banheira, quando já estava com 15 dias de vida! Antes disso, nunca mencionaram  a palavra banho na UTI. Só sei que um belo dia uma enfermeira perguntou se eu gostaria de dar banho nele. Gente, que felicidade! Aceitei imediatamente e me preparei psicologicamente para o momento, afinal, eram 19 anos sem dar banho em recém nascido! A enfermeira preparou tudo, eu desconectei o Matheus dos fios, tirei a roupinha e o conduzi até a banheira. Foi comédia! Eu não sabia pegá-lo e as instruções da enfermeira me pareciam estranhas. Mas ao fim deu tudo certo! Depois dessa estreia, ele tomou banho diariamente. Papai era bemmm mais habilidoso do que a mamãe nessa tarefa!

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Os dias passavam lentamente e a busca por respostas sobre a saturação continuava. Observou-se que certas vezes as quedas ocorriam durante as mamadas, fato comum de ocorrer em bebês prematuros. Matheus não era prematuro, mas apresentou um quadro neurológico grave. Como eu disse, as quedas eram raras e muito rápidas, mas  devido a isso ele dependia de um pouquinho oxigênio.

Um belo dia, chegamos na UTI e Matheus estava sem oxigênio. A enfermeira disse que durante 24 horas ele não havia apresentado nenhuma queda na saturação e que o quadro estava sendo observado. Ufa!!! Estava perto de irmos para casa com o nosso valente!

No dia seguinte, nos informaram sobre o teste do car seat – obrigatório para bebês de UTI no Canadá.  O teste consistiu na permanência dele na cadeirinha por no mínimo 1 hora. Durante esse período ele foi monitorado pela equipe de enfermagem e nenhuma intercorrência foi registrada.

Matheus foi colocado no bebê conforto e chorou, chorou e chorou! As enfermeiras trouxeram duas ampolinhas de glicose e o enganaram com essa doçura. No fim do teste ele já estava dormindo. Sim dormir pode! Não houve queda de saturação e nenhum outro problema! Ele foi aprovado e a ida para casa era algo real!

Em casa

O dia 28 de fevereiro de 2015 amanheceu esplendoroso! Dia do bebê ir para casa! Acordamos cedo e ficamos no aguardo do médico para a liberação. Antes da alta foram feitas diversas verificações e dadas muitas explicações. Por volta das 11 horas colocamos o Matheus no bebê conforto e saímos radiantes daquele lugar.10339449_804232256281343_3843743065023708339_o 11044637_804232296281339_2859568278446041340_o

Os primeiros dias em casa foram exaustivos, mas felizes.  As semanas seguintes foram de consultas e orientações.IMG-20160306-WA0018 IMG-20160306-WA0019 (1) IMG-20160306-WA0017 (1) IMG-20150228-WA0027 (2) IMG-20150228-WA0017

A cirurgia

Com dois meses e meio Matheus fez a cirurgia para colocação do shunt, a válvula que drena o licor do cérebro e trata os sintomas da hidrocefalia. Esse procedimento foi realizado no hospital Sick Kids em  Toronto, sob a coordenação do Dr. Peter Dirks (http://www.sickkids.ca/Research/Dirks-Lab/index.html) . Nem mesmo a competência do médico e a referência consolidada do hospital, diminuíram a nossa angustia.

Nos despedimos e entregamos o nosso bebê para a equipe de anestesia. Aguardamos ansiosos e com os olhos atentos ao monitor que mostrava o andamento da cirurgia. Ao término, uma médica da equipe veio nos informar que estava tudo bem e que Matheus acordaria em 25 minutos. Reencontrar com ele foi emocionante.

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Três dias depois voltamos para casa. Matheus não teve nenhuma intercorrência após a cirurgia e o shunt segue funcionando como esperado.

Para saber…

hidrocefalia
Fonte: www.prematuridade.com

Hidrocefalia – o cérebro é envolvido por um liquido chamado de líquor ou liquido céfalo-raquidiano (LCR), cujas funções básicas são hidratar e proteger. Este liquido está presente também dentro do cérebro em algumas cavidades que são chamadas de ventrículos. O acúmulo deste liquido dentro dessas cavidades com consequente dilatação dos ventrículos é chamado de hidrocefalia.

Na maioria dos casos a hidrocefalia é tratada com as derivações, popularmente conhecida como válvulas. Estes sistemas são compostos de um cateter que fica em contato com o líquor dentro do ventrículo e está ligado a uma válvula que limita a quantidade de líquido a ser drenado. A outra extremidade do catéter é passada por baixo da pele até uma outra cavidade do corpo que possa receber este líquido, geralmente a cavidade abdominal.

As fisioterapias e  a estimulação precoce

“Quando falamos em Fisioterapia Pediátrica, logo pensamos no desenvolvimento motor, onde a criança tem que ser capaz de controlar seu próprio corpo, afinal é através do corpo que ela brinca e ganha recursos adequados para o seu desenvolvimento, garantindo sua independência e ainda contribuindo para que tenha um bom conceito de si mesma.

Este processo de desenvolvimento do bebê se compreende em uma complexa sequência de eventos fisiológicos e de mudanças comportamentais que se iniciam na concepção e se estendem até a vida adulta. Desde a fecundação, as células responsáveis pelo processo de formação do feto participam de uma série de situações em que se multiplicam e se transformam com a finalidade de gerar um organismo íntegro, maduro e harmônico para o seu funcionamento. No entanto, é após o nascimento que o desenvolvimento motor se desenvolve ao longo da vida, sendo submetida a um processo de transição, cujos movimentos livres experimentados intra-útero, são agora restritos pela ação da gravidade.

Conhecendo o universo da motricidade humana, o acompanhamento de todo o processo de desenvolvimento infantil e a detecção precoce de distúrbios relacionados ao desenvolvimento motor consegue-se entender a importância da intervenção Fisioterapêutica imediata nos bebês para um melhor prognóstico do desenvolvimento.” (Trecho extraído de artigo publicado no site www.prematuridade.com).

Matheus iniciou o acompanhamento com uma equipe multidisciplinar composta por Fisioterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Enfermeira para Estimulação precoce e Fonoaudiologa. As atividades aconteciam  duas ou três vezes na semana e eram acompanhadas de perto por mim. Esse acompanhamento é necessário, pois o tempo de interesse do bebê é muito curto, logo, os exercícios precisam ser repetidos em casa em alguns momentos do dia (isso ocorre até os dias atuais). Além disso, a fisioterapeuta Marianne Lucena explicou em texto publicado aqui que os pais são os maiores responsáveis pela estimulação.

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 Hidroterapia – é uma técnica fisioterapêutica que possibilita a realização de atividade de maior grau de dificuldade, proporcionando aos pacientes benefícios psicológicos e físicos. Se comparada com técnicas realizadas no solo, a hidroterapia devido aos princípios físicos da água, facilita e melhora as reações de equilíbrio, coordenação, postura e proporciona ao paciente a sensação de segurança.  Matheus iniciou a hidroterapia com 8 meses. Ele é um peixinho!IMG-20151217-WA0017 IMG-20151226-WA0120
O aparelho auditivo 

Desde que o Matheus nasceu e todas as complicações vieram a tona, nós fomos informados das possíveis sequelas causadas pela trombocitopenia,  hidrocefalia e uso de antibióticos para comabter infecções que podiam ocorrer devido as hemorragias. Assim sendo,  a possibilidade dele precisar de cirurgia para colocação do shunt,  aparelhos auditivos e óculos sempre foi real.

A colocação dos aparelhos ocorreu quando ele estava com 9 meses.  Imediatamente após a colocação percebemos uma mudança no semblante dele. Como se dissesse “Ops, tem algo diferente por aqui!” Desde então, os sorrisos e as respostas aos estímulos sonoros surgem mais facilmente.

Sem dúvida a colocação dos aparelhos caracteriza-se como o início de uma nova etapa para ele, pois o cérebro será ainda mais estimulado e outras áreas tendem a se desenvolver melhor. Sem contar que o tratamento precoce e as estimulações necessárias ajudarão no desenvolvimento da linguagem.

Claro que ele já aprendeu a tirar os aparelhos das orelhas e que precisamos fiscalizar.  A terapeuta sugeriu o uso de touca até que ele compreenda a necessidade que mantê-los. Esse artificio era possível no Canadá, mas no Brasil é impossível andar de touca… Bem, tenho sido e a fiscal dos aparelhos! 20151028_212532 IMG-20151027-WA0010

 Por hora é isso! Falta apenas os detalhes da celebração de 1 ano de vida para fecharmos essa retrospectiva e darmos início ao relato das aventuras do Dom Valente aqui no Brasil.
Beijos e não deixem de acessar o site para embarcar nas aventuras junto com a gente!