Um presente chamado Antônio

Meu nome é Yanna, sou baiana, casada com Gustavo e mãe de dois filhos, Bento e Antônio.

Bento chegou primeiro, foi planejado, chegou apressadinho com 34 semanas, muito frágil, mas, que se desenvolveu e superou tudo. Bento me fez mãe, não a melhor de todas, estou longe disso, mas, uma mãe que ele precisava. Quando Bento tinha exatos 7 meses, descobri que Antônio estava a caminho.

Foi um grande susto, me desesperei, como poderia dar conta de dois bebês? Mal sabia eu que a jornada estava apenas começando.

Antônio lutou por sua existência desde o princípio, tive uma ameaça de aborto importante e fiquei em cima da cama, deitada, por todo o primeiro trimestre de gestação. A natureza queria expulsar meu filho, mas, ele não aceitou a sentença. Passado esse primeiro momento, a gravidez se estabilizou e transcorreu de maneira satisfatória. Não tive os enjoos da primeira gestação e curti intensamente a chegada desse segundo milagre.

Na 19 semana de gestação, fui fazer uma ultra para saber o sexo, era fora do cronograma do pré-natal, mas, estava ansiosa para saber se seria uma menina ou um menino. Esse exame iniciou e a médica foi direto para a genitália e já disse: Vem outro menino. Depois disso, um silencio pairou na sala e comecei a perceber que havia algo errado. A médica, que já havia acompanhado minha primeira gestação, ficou calada, o que não era comum. Interrompi o silencio e perguntei: Tem alguma coisa errada Dra Lívia? Aí ela respondeu: Yanna, ele me apresentou um pé muito torto e o formato do crânio não está como deveria.

Ela pediu para eu aguardar o laudo e a impressão diagnóstica tinha pés tortos bilateriais, crânio em forma de limão com dilatação de ventrículos, sugestivo de hidrocefalia, mielomeningocele.

Me recordo da sensação quando li tudo isso. Era como se eu estivesse em queda livre, sentia um formigamento na face, nas mãos, minha respiração acelerou, fiquei tonta. Nesse momento, entrei num estado que chamo de luto. Meu filho perfeito não existia mais. Meu marido entrou em negação, ele achava que a médica havia errado no diagnóstico.

Eu chorei muito, chorei até esgotar, briguei com Deus, sentia um vazio, um medo, uma culpa, buscava em minha memória algo que havia feito que tinha sido o causador dessa condição em meu filho e isso durou por quase um mês.

Passado esse momento de desespero eu tinha duas opções: continuar chorando ou seguir lutando. Optei por lutar. Passei a estudar tudo sobre a condição de meu filho, busquei os médicos que poderiam ajudar e encontrei um anjo chamado José Roberto Tude, Neurocirurgião Pediátrico.

Eu me organizei para a chegada de Antônio, tudo estava preparado, fiz uso de corticoide prévio para o amadurecimento dos pulmões e o apressadinho também chegou com 34 semanas.

Antônio nasceu as 21:45h do dia 22/01/2011, gritando muito, Apgar 9 de 10, sem desconforto respiratório nenhum, nos conhecemos, nos cheiramos, nos amamos e eu disse a ele: Seja forte meu filho, não me abandone. Eu te amo. E ele foi direto para a UTI, aguardando a cirurgia de correção da mielo.

Ele operou no dia seguinte, 10 horas após o seu nascimento. A cirurgia durou 4 horas. Ele ficou 3 dias em coma, e foi um dos momentos mais difíceis de minha vida. Ver meu filho tão pequeno, tão frágil, inerte, entubado, foi muito dolorido.

Eu ficava o tempo todo que podia do lado dele. Só não dormia, pois não era permitido. No terceiro dia ele acordou, estava rosado, de bruços por causa da cirurgia, tão lindo, moreno, cabeludinho.

Ele nasceu com os testículos no abdome e precisou corrigir, a cirurgia aconteceu no 5 dia de vida, pois, já havia sido sinalizado a necessidade de colocação do shunt para contenção da hidrocefalia. Para a colocação da derivação ou válvula, era necessário que ele estivesse clinicamente bem, sem nenhuma intercorrência, pelo risco de infecção. Ele colocou a válvula no 9 dia de vida.

Antes de ir para o centro cirúrgico, eu peguei meu filho pela primeira vez no colo. Ele estava em dieta zero, muito agoniado e tivemos nosso primeiro momento juntos. Peguei em sua mãozinha, cheirei ele todo e disse o quanto o amava.

Ele seguiu para o centro cirúrgico e todas as mães de filhos internados na UTI ficaram comigo na porta do centro cirúrgico, até que a cirurgia acabou. A solidariedade foi muito grande. Seus filhos lá, internados e elas comigo, me apoiando. Nunca vou esquecer esse momento.

A cirurgia foi tranquila, tivemos a janela de antibiótico e com 22 dias, recebemos alta e pude levar meu filho para casa.

Antônio chegou na minha vida para me mudar. Não tenho dúvidas de que ele é a minha missão nessa existência. Temos uma cumplicidade muito grande, aprendo muito com ele todos os dias.

Em termos de sequelas ele tem paralisia severa de membros inferiores, é cadeirante portanto, bexiga e intestino neurogênicos, hidrocefalia controlada com válvula, discreto retardo cognitivo.

É acompanhado pela Rede Sarah de Reabilitação, Hospital referência no tratamento de mielomeningocele no Brasil, desde o primeiro ano de vida.

Segue uma rotina urológica de cateterismo vesical para esvaziamento de bexiga de 4 em 4 horas, frequenta escola regular. É um garotinho maravilhoso, muito amigo e carinhoso.

Apesar de todo o sofrimento inicial, sofrimento esse fruto da incerteza e insegurança, nunca da falta de amor, eu sou muito grata por ter recebido a honra de compartilhar uma existência com um ser iluminado que mesmo preso as suas limitações físicas terrenas, nunca deixou de sorrir, nunca deixou de amar, busca autonomia, doa carinho, é sensível.

Eu sou privilegiada. Eu sou mãe de um ser muito especial, não em suas condições físicas, mas, especial por tudo o que representa para nossas vidas.

 

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