Os sentidos da diferença

Autora:  Maria Teresa Eglér Mantoan

A inclusão e suas práticas giram em torno de uma questão de fundo: a produção da identidade e da diferença.

A diferença tem sido uma referência pela qual alguns grupos discutem seus traços a partir de concepções de “comunidade”, enfatizando as necessidades comuns desses grupos, na sociedade em geral; é uma referência pela qual demonstramos a desconfiança pós moderna em relação a discursos unificadores, universalizantes, que povoam a escola e a sociedade em geral.

Por outro lado, a inclusão coloca em xeque a estabilidade da identidade, usualmente compreendida como algo fixado, imutável; denuncia o caráter artificialmente construído das identidades existentes, revelando o lado impensado, inexplorado destas e vai de encontro a todo modelo e padrão identitário tão celebrado pelas escolas.

Ao discutir a inclusão a partir de critérios que implicam em oposições binárias,  desconhecem-se a natureza instável da identidade e a capacidade multiplicativa da diferença. Nenhuma delas, contudo, admite ser contida nas malhas das categorizações firmadas pelo poder da social de criar critérios de identificação e de diferenciação estáticos e discriminatórios.

As classificações confinam a diferença em desvios de um modelo escolhido ou inventado. As diferenças definidas por agrupamentos constituídos pela semelhança de um ou mais atributos se desdobram em subclasses e tendem a se tornarem permanentes, reificadas. Descartam-se, assim, o caráter mutante da diferença e sua capacidade de escapar a toda convenção possível.

Quando se abstrai a diferença, para se chegar a um sujeito universal, a inclusão perde o seu sentido. Conceber e tratar as pessoas igualmente esconde suas especificidades. Porém, enfatizar suas diferenças, pode excluí-las do mesmo modo! Eis aí a armadilha da inclusão.

As peculiaridades definem a pessoa e estão sujeitas a diferenciações contínuas,  tanto interna como externamente. Estamos, no entanto, convencidos e habituados às formas de representação da diferença, que são resultantes de comparações e de contrastes externos. Para Burbules (2008), essas representações constituem formas de pensar a diferença, como diferença entre.

Por se apoiarem no sentido da diferença entre, nossas políticas públicas confirmam, em muitos momentos, o projeto igualitarista e universalista da Modernidade, baseado na identidade idealizada e fixa do aluno modelar. Embora já tenhamos avançado muito, desconstruir o sentido da diferença entre em nossos cenários sociais é ainda uma gigantesca tarefa.

A diferença entre está subjacente a todos esses entraves às mudanças propostas pela inclusão. Velada ou explicitamente, ao fazermos comparações, fixamos modelos, definimos classes e subclasses com base em atributos que não dão conta das pessoas  por completo , excluindo-as por fugirem à média e/ou à norma estabelecida.

A diferenciação para excluir limita o direito de participação social e o gozo do direito de decidir e de opinar de determinadas pessoas e populações e é ainda a mais freqüente. Na contramão dessa tendência, a diferenciação para incluir está cada vez mais se destacando e promovendo a inclusão total pela quebra de barreiras físicas, atitudinais, comunicacionais, que impedem algumas pessoas em certas situações e circunstâncias de conviverem, cooperarem, estarem com todos, participando, compartilhando com os demais da vida social, escolar, familiar, laboral, como sujeitos de direito e de deveres comuns a todos.

Ao diferenciarmos para incluir, estamos reconhecendo o sentido multiplicativo da diferença, que vaza e não permite contenções, porque está sempre mudando e se diferenciando, interna e externamente, em cada sujeito. Essa forma de diferenciação é fluída (Burbules, 2008) e bem-vinda, porque não celebra, aceita, nivela, mas , questiona a diferença!

Contrapondo-se à diferença entre, a inclusão é uma reação aos valores da sociedade dominante e ao pluralismo, entendido como uma aceitação do outro e incorporação da diferença, sem conflito, sem confronto.

Não há mais como recusar, negar, desvalidar a diferença na sociedade brasileira e no cenário internacional. Resta-nos, pois, reconhecer qual é o sentido a ela atribuído: diferença como padrão produzido pelos que procuram se diferenciar cada vez mais para manter a estabilidade de sua identificação; ou diferença, como motivo pelo qual se coloca em cheque  a sua produção social, como um valor negativo, discriminador e marginalizante.

Referência

BURBULES, Nicholas C. Uma gramática da diferença: algumas formas de repensar a diferença e a diversidade como tópicos educacionais. In: GARCIA, Regina Leite; MOREIRA, Antonio Flávio Barbosa (Org.). Currículo, na contemporaneidade- incertezas e desafios. 3ªed. São Paulo: Cortez Editora, 2008.

Fonte imagem: http://www.fundacionecaglobal.org/educacao-e-inclusao-social/