Mudo, surdo–mudo, surdo, deficiente auditivo… Como denominar?

Paola Fernanda apresenta um texto reflexivo sobre as terminologias adequadas para se referir as pessoas com deficiência auditiva.

Ao longo dos anos, terminologias e conceitos são modificados de acordo com o entendimento da sociedade  e a evolução das pesquisas. Um exemplo, é a forma como as pessoas que possuem algum tipo de deficiência já foram chamadas ao longo da história da humanidade – aleijado,  retardado, invalido, incapacitado, ceguinho, surdo-mudo, mudinho, portador de deficiência – e inúmeros outros que os desqualificam como seres humanos.

De forma geral, as pessoas ainda não compreendem que o uso de determinada terminologia pode reforçar a segregação e a exclusão.  Assim, o termo “portadores” implica em algo que se “porta”, e que seria possível de se deixar de portar, mas a deficiência,  geralmente, é permanente. Ou seja, o termo não cabe, visto que reforça algo negativo e deixa de evidenciar as potencialidades.

Da mesma forma,  ao nomear uma pessoa que usa a Língua Brasileira de Sinais  (Libras) como primeira língua, de “mudinha”, surda-muda ou deficiente é como dizer que um australiano, residente fora de seu país de origem, é deficiente, visto que ele atribui outra língua como meio de comunicação.  

As pessoas surdas (em geral) não são mudas, pois o aparelho fonador é preservado. A diferença é que elas usam outra linguagem no processo comunicativo, neste caso, visual-espacial (LIBRAS). O termo Surdo tem sido utilizado quando a pessoa com surdez tem uma perda profunda detectada por exames como audiometria e Bera. Quando a perda é leve ou moderada ainda persiste o termo Deficiente Auditivo, já na Comunidade Surda, o Surdo é aquele que é usuário de Libras e é pertencente a tal. 

Se o termo Deficiente Auditivo não estiver impregnado de preconceito por parte de quem o utiliza não deve ser errôneo. O termo “deficiente” não deve estar associado a incapacidade, mas a deficit, ou seja, algo que não está em sua totalidade, mas que não impede a pessoa viver em sua plenitude, caracterizando também aos que não são usuários da LIBRAS e fazem a leitura labial. 

 Assim, devemos pautar nossa reflexão no respeito à diversidade. Quando se tem dúvidas quanto a correta terminologia, o ideal é usar o nome da pessoa para denominá-la. A partir dessa decisão, o deficit não será o elemento central, mas sim o ser humano e todo o seu potencial. 

Ao afirmar isso, podemos concluir que a individualidade de cada pessoa deve ser respeitada. Devemos evoluir, aprender a aceitar e, principalmente, ter consciência de que cada pessoa é única e capaz de avançar dentro das suas limitações.

Devemos nos informar e buscar aplicar as terminologias corretas sempre que o uso for necessário, mas também podemos nomear cada pessoa pelo seu nome e sobrenome. Rótulos e termos pejorativos devem ser banidos!

Algumas informações adicionais

surdo: alguém que tem perda total da audição.

Surdo (com a primeira letra em maiúscula): utiliza-se dessa forma ao se referir a alguém com perda auditiva que faz parte da Comunidade Surda e utiliza a língua de sinais como sua língua-mãe.

Deficiente auditivo: pode ser usado para qualquer pessoa com perda auditiva, mas é comum utilizar este termo para quem tem algum resíduo auditivo ou que ouve alguma coisa apor meio de aparelhos ou implantes auditivos. Ressaltoa-se que o termo deficiente, como sujeito, deve ser substituído por “pessoa com deficiência auditiva”.

Surdo oralizado/surdo usuário da língua portuguesa: são as pessoas com perda auditiva que utilizam a voz como principal forma de comunicação e podem ser auxiliados pela leitura labial e o uso de aparelhos ou implantes auditivos.

Surdo sinalizante: são as pessoas com perda auditiva que utilizam a Língua Brasileira de Sinais como forma principal de comunicação. Podem ou não utilizar aparelhos ou implantes auditivos. 

Implantado: são pessoas que utilizam algum implante auditivo para recuperar parte da audição. Pode ser um implante coclear, implante de condução óssea (como o Baha) ou implante de tronco encefálico.

Bilateral/unilateral: normalmente utilizado para identificar pessoas com implante em ambos os ouvidos ou em apenas um ouvido, respectivamente.

Referência
HONORA, Márcia, FRIZANCO, Mary Lopes Esteves. Livro Ilustrado de Língua Brasileira de Sinais: desvendando a comunicação usada pelas pessoas com surdez. II Título, São Paulo, Ciranda Cultural, 2009. 

Fonte imagem destacada: http://www.despnet.com