Dor, correria, cirurgia e alegria

Olá! Gente, apenas hoje me sinto reestruturada emocionalmente e descansada o suficiente para compartilhar com vocês os últimos acontecimentos. Embora tenha sido uma semana corrida e dolorosa, Deus cuidou de cada detalhe e o Dom Valente venceu mais uma!!!

Então, como todos sabem o Matheus usa a DVP (derivação ventricular peritoneal) ou válvula ou shunt. A colocação foi feita ainda no Canadá, quando ele estava com dois meses e meio de vida, ou seja, a válvula aniversariou em abril de 2016… Ele não teve nenhuma intercorrência durante ou após a cirurgia, estava tudo indo muito bem. Estava…

Mas, no sábado passado ele começou apresentar um comportamento estranho. Estava irritado e choroso. Esse comportamento foi piorando, o choro transformou-se em gritos desesperados que persistiam mesmo em situações confortáveis. Levamos ao médico no sábado e saímos de lá com a receita de dipirona e  luftal nas mãos… Não observamos outro sintoma (febre, vômito, sonolência, enrijecimento da nuca) que pudesse indicar algum problema com a válvula. Porém, o choro continuou  e se intensificou!

Terça-feria cedinho voltamos ao hospital e uma tomografia foi solicitada.  O Dr. Benício – melhor neurocirurgião do DF – foi chamado  para ajudar no diagnóstico. Inicialmente, suspeitou-se que a válvula estivesse obstruída, problema comum de acontecer. Ele fez a checagem (tocando a válvula é possível perceber se ela parou de funcionar ou não) e nos disse que estava tudo funcionando bem. Tivemos um breve momento de alívio, pois acreditamos que não seria nada com a dvp. Ah se…

Dr. Benício solicitou a tomografia feita em março, a qual foi comparada com a do dia… O alívio acabou! A válvula não estava obstruída, mas  hiperdrenando. Essa hiperdrenagem causou um edema ao redor da dvp, que não deu vazão ao licor.  A única alternativa seria a cirurgia para drenar o fluído e trocar a válvula, mas ele checaria os exames que estavam com a neurologista do Matheus antes de fechar essa decisão.

Até então estávamos numa sala de observação. Matheus só parava de chorar quando medicado. Ele não aceitava ficar na cama, só queria meus braços. Eu estava cansada e destruída emocionalmente, mas o conforto dele era o principal. Acalentá-lo em meu colo foi a minha missão naquele dia e nos demais que se seguiram…

Não bastasse a  dor horrível causada pela hiperdrenagem, ainda tivemos que permitir e presenciar as picadas! Ver o filho gritar de dor e necessitar de soro e exames é algo desumano, embora, saibamos que é para o bem. Eu chorei de soluçar e tive vontade de bater na técnica de enfermagem quando ela não conseguiu pegar uma veia de primeira. Mentalmente xinguei até a quinta geração dela!

Depois da sessão de tortura, fomos transferidos para o quarto. As enfermeiras e técnicas da pediatria se mostraram sensíveis e profissionais competentes. Verificaram o acesso, melhoraram a tala (Acreditem, não havia tala e nem material para fazer uma na emergência infantil. Isso que era hospital particular – Santa Lúcia http://www.santalucia.com.br) e medicaram novamente o Matheus na tentativa dele acalmar e ter uma noite mais tranquila.

O problema é que o efeito da medicação durava menos do que o tempo de intervalo que era 6 horas. Nesses intervalos tinha mais choro, mais colo e mais palmadinhas ritmadas da mamãe (tapinhas que eu dava nas costas dele). Até a cadência diferente o irritava, logo, apenas eu conseguia imprimir o ritmo certo, capaz de acalmá-lo um pouco.

Tivemos uma noite cansativa e muito sofrida. O sofrimento dele doía em nossa alma. A expectativa estava no dia seguinte, quando confirmaríamos a cirurgia.

Quem tem um amigão, tem tudo! Matheus e seu elefante de estimação! Esse o acompanha desde o Canadá!

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O dia amanheceu!  Com ele chegou a esperança atendendo pelo nome Benício. Ele confirmou que seria mesmo caso de cirurgia e nos disse que poderia fazer naquele dia a tardinha desde que o plano autorizasse. Não bastasse a questão do plano, tínhamos que encontrar vaga numa UTI pediátrica e ainda lutávamos contra o tempo, visto que o Dr. Benício viajaria na quinta-feira para um Congresso em Paris.

Nesse momento, Marcos não estava mais no Hospital, já tinha ido ao HMAB autorizar uma ressonância. Liguei para ele e expliquei a situação. Dr. Benício, gentilmente, havia ligado no Hospital Brasília e confirmado a disponibilidade de dois leitos da UTI pediátrica. Leitos em UTI são ocupados na velocidade da luz… Enquanto Marcos resolvia as questões burocráticas e eu aconchegava o Matheus, a equipe do Hospital Santa Lúcia preparava o relatório e contactava a ambulância para uma possível transferência…

Por volta do meio dia Marcos chegou. Estava tudo encaminhado para a cirurgia acontecer em algumas horas. Ufa, um refrigério!

Um pouco depois chegou a equipe que faria a transferência. Os gritos do Matheus ecoavam no hospital. Entramos na ambulância e seguimos para o Hospital Brasília onde fomos recebidos por uma médica muito simpática e gentil. Aguardamos um tempinho na sala de observação e fomos encaminhados para a UTI PED. 

Entramos com o Matheus, mas em determinado ponto tivemos que aguardar os procedimentos-padrão da equipe. Tais procedimentos consistiam na verificação dos sinais vitais e retirada do acesso, o qual não estava em boas condições mesmo. Mais uma vez eu chorei, pois reconheço cada choro e o que ouvia era de dor intensa. Sim, retirar soro dói demais mesmo! Após mais um episódio de tortura fomos autorizados a permanecer com ele até o momento da cirurgia. Demos o banho pré operatório com clorexidina, cheiramos, beijamos muito e o acompanhamos até o Centro cirúrgico. 

Instantes antes da cirurgia. Só quem vive um momento assim sabe o quão doloroso é…

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Fui autorizada a entrar na sala e permanecer com ele até a sedação por inalação – primeira etapa da anestesia.  Para entrar precisei me paramentar, e posso afirmar que jamais  me vesti tão rapidamente. Fiquei ao lado dele, segurei em sua mão, acarinhei seu cabelo, beijei seu rosto (tirei a máscara para fazer isso. Se pode, não sei, eu fiz) e fui convidada a me retirar tão logo o gás chegou em seus pulmões e ele apagou. O anestesista achou que eu fosse desmaiar… Ele dizia: mãe, mãeee, mãezinha… Você está bem? Eu estava consciente, mas não queria sair dali, na verdade eu não queria que o Matheus estivesse passando por tudo aquilo… Ele explicou que entendia meu desespero, mas que essa era a alternativa que tínhamos para fazê-lo melhorar. Eu sai, encontrei o Marcos e chorei mais uma vez…

Passadas 1 hora e meia de espera, a enfermeira veio nos chamar. Disse que tudo tinha saído conforme o esperado, que  Matheus já havia acordado e precisávamos correr para acompanhá-lo. O corredor estava frio, mas meu coração se aqueceu ao vê-lo tranquilo no leito a caminho da UTI. A cabecinha estava enfaixada formando um capacete, e isso assustou um pouco, pois na primeira cirurgia não houve curativo.

Recém finalizada a cirurgia!

IMG-20160509-WA0004Chegamos na UTI e recebemos explicações breves do Dr. Benício, o qual nos informou que tudo transcorreu como esperado, que Matheus já havia acordado e chorado no Centro cirúrgico, que o edema havia sido drenado, que uma nova válvula, agora programável, havia sido colocada e que voltaria no outro dia cedinho para vê-lo. A médica intensivista alertou que “cedinho” para ele significa 5:30, 6 horas da manhã…

* Válvula Programável (é interna como a anterior, mas permite que o neurocirurgião ajuste a pressão por meio de controle remoto). Nesse modelo o risco de ocorrer  hiperdrenagem é muito reduzido.

Dito e feito, 6 e pouquinho o Dr. Benício já estava ao nosso lado. Com uma expressão leve e esbanjando simpatia, nos perguntou como foi a noite e pediu para retirar o capacete… Deu as orientações necessárias e seguiu para seus compromissos… Somos gratos por suas mãos abençoadas! Tanta sabedoria e uma simplicidade que encanta à todos  (falarei sobre isso num post específico). 

Um tempinho depois uma técnica de enfermagem avisou que Matheus tomaria banho. Como assim, banho às 7 da manhã? kkkkk Ordens do Dr. Benício. Esse é o procedimento para todos os seus pacientes. A equipe segue a cartilha dele a risca!!! 

Logo após o banho fomos encaminhados para o quarto, afinal, não dá para ocupar leito de UTI PED em vão! A estada de uma ONÇA na UTI será tema para outro post em breve… 

O maqueiro que nos conduziu até o quarto me orientou a aproveitar o espaço amplo, a cama de acompanhante e descansar. Até ele percebeu que a noite na UTI foi agitada ao extremo. Sim, segui seus conselhos. Aproveitei que Matheus ainda estava sob efeito dos medicamentos, aconcheguei ele no berço e me permiti dormir um pouco. Acho que foram umas duas horas de sono. Ninguém da enfermaria veio fazer qualquer checagem (não que eu tenha visto), aliás, deve ser um procedimento-padrão para possibilitar o descanso das crianças e familiares.

A quinta-feira passou lentamente, mas os efeitos da cirurgia já eram visíveis. Matheus intercalava períodos calmos e tempestuosos, mas não fazia mais uso de qualquer analgésico e nem gritava como antes. Durante a noite foi necessário ministrar umas gotinhas de dipirona, pois ele estava inquieto.

Despertamos na sexta-feira com a certeza de que iríamos para casa! Passamos o dia aguardando o médico que ficou no lugar do Dr. Benício para liberar a alta. O tempo não passava e a ansiedade de sair dali era visível. Dr. Márcio apareceu no final da tarde. Examinou o Matheus, fez algumas perguntas, respondeu nossas dúvidas e nos mandou embora! Graças a Deus!

Em cinco minutos as malas estavam arrumadas e nós esperávamos o maqueiro na porta (protocolo do hospital). Matheus estava tão ansioso quanto nós e demonstrou isso em forma de choro! Só sei que ele entrou e saiu do hospital chorando. Quem viu deve ter pensado: certeza que darão alta para essa criONÇA?

Entramos no carro e o choro persistiu. Ele estava com dor, mas não havia medicamento prescrito para aquele dia… No trajeto coloquei um pedacinho de chocolate na boca dele e conseguimos chegar em casa. 

Ahhh nosso lar, doce lar!!! Como é maravilhoso estar em casa! Matheus tomou banho  e se aninhou em seu berço demonstrando reconhecer o ambiente e agradecimento por estar de volta.

O fim de semana foi tranquilo. Foi o domingo de Dia das Mães mais feliz que poderia ter! Eu coloquei o sono em dia, dormi feito a Bela Adormecida. O comportamento do Matheus foi normalizando, ele foi acalmando e voltando ao ritmo aos poucos. Hoje está o Matheus de sempre, tanto que são duas da madruga e ele está acordado. aiaiai Apenas algumas coisas ainda estão diferentes, ele está mamando muito mais do que o usual, deve ser uma forma de recuperar as energias gastas com o choro e com os intervalos sem alimentos que precederam exames e a cirurgia.

Meus queridos, por hoje é isso, mas ainda não é tudo. Essa semana farei diversos posts com temas específicos, pois é impossível não citar o carinho dos amigos, as orações, a visita inesperada no hospital, o abraço, as mensagens e ligações; a competência do Dr. Benício,  as explicações técnicas sobre a nova válvula, os agitos de uma onça na UTI, o “delicioso” menu oferecido e etc, etc…

Fiquem com Deus! Entreguem suas vida nas mãos do nosso Senhor e Salvador. Ele tudo pode, creiam!

Comentários

  1. Oi minha irmã!! chorei só em ler o que vcs passaram. Mas Deus só permite grandes batalhas para grandes soldados, creio que Ele tem os sustentado e dado força para momentos tão difíceis. vou estar em oração pela a vida do Matheus. Bjos com saudades.

    1. Realmente não me considero uma grande soldado, não queria que Matheus passasse por tudo isso, mas não posso ir contra os planos de Deus. Ele tudo sabe e algum propósito deve ter. Obrigada pelas orações e carinho. Bjus

  2. Neid apesar de acomapnhar uma escrita calma e doce eu tive que pular pro final e saber se ele estava bem pra depois acompanhar o texto na integra. Deus é maravilhoso e todo tempo todo ele é bom…
    As vezes não sei se sou corte, mais o nosso dom valente eu tenho certeza…..