Como tudo começou

Em junho de 2014 descobrimos a gravidez e nos alegramos com a possibilidade de ter um bebê em casa quase 20 anos depois do nascimento do primeiro filho…

A gestação foi tranquila e nada foi detectado durante os exames (isso porque no Canadá são feitos apenas 2 ultrassons, sendo que o último é com apenas 20 semanas de gestação).

No dia 29 de janeiro de 2015 fui para o curso de inglês porque seria a minha despedida e a professora havia preparado uma festinha. Ao descer as escadas de casa já senti um desconforto e pedi para que o marido ficasse atento ao celular pois poderia ser chamado a qualquer instante. Por volta do meio dia voltei para casa e como as dores estavam mais fortes e ritmadas resolvi ir ao hospital. Após a verificação nos informaram que ainda não havia dilatação suficiente para internação.

Voltei para casa e tentei aplicar as técnicas aprendidas durante a gravidez, as quais serviriam para aliviar as dores… A tardinha voltamos para o hospital e mais uma vez nos disseram que não poderia ficar  porque só tinha 2 cm de dilatação (o mínimo para ser internada seria 4 cm). Entretanto, do lado de fora a neve despencava incessante. Então, conseguimos comover a equipe e lá ficamos a espera do nosso bebê!

O tempo passava e as dores ficavam cada vez mais intensas, contudo, a dilatação não evoluía. O monitoramento do bebê indicava que estava tudo bem com ele mesmo após uma leve baixa dos batimentos cardíacos.  Por volta da meia noite atingi os  4 cm de dilatação e autorizaram a aplicação da analgesia. Que alívio! Dormi!

O dia amanheceu e o trabalho de parto foi iniciado. A expulsão demorou um pouco e depois entendemos o motivo… Matheus veio ao mundo pesando apenas 2.280 e medindo 44 cm (com 38 semanas e meia de gestação). Ele não chorou e a tensão tomou conta da sala. Entretanto, minutos após o nascimento a médica colocou ele em meus braços e me pareceu ser um bebê saudável, embora pequeno. Jamais esquecerei o seu olhar firme e decidido, um verdadeiro Dom Valente!

Ainda em meus braços, observei que havia sangue em seu olho esquerdo e também na boquinha. Gritei para a enfermeira e ele foi tirado de mim. Instantes depois o levaram para a UTI neonatal e nos informaram que sua condição estava sendo verificada.

O tempo passou lentamente até que uma equipe composta por médico, residentes, enfermeira e assistente social entrou no quarto para nos atualizar sobre a situação. O médico, Dr. Connely, foi extremamente sincero e frio. Nos disse que o cérebro dele ainda estava funcionando, mas que não havia expectativas. Segundo ele, o ultrassom havia detectado uma hemorragia cerebral muito extensa e mais alguma coisa que ainda seria investigada. O caso era crítico! Nós choramos e pedimos para ir embora daquele local. Não havia nada que pudéssemos fazer estando ali. Queríamos sofrer no aconchego da nossa casa.

Antes da alta passamos na UTI para ver nosso bebê! Ele estava medicado e monitorado. Naquele momento não podíamos ter ele em nossos braços.

O dia amanheceu e corremos para o hospital ver o nosso guerreiro. Queríamos estar com ele o tempo todo, porém entendíamos que as equipes médica e de enfermagem necessitavam fazer seu trabalho e que a nossa presença constante acabaria atrapalhando. Assim, nos primeiros 5 dias íamos duas vezes e ficávamos com ele por algumas horas. Só o seguramos em nossos braços no décimo dia de internação, visto que antes disso ele estava recebendo medicação e transfusão de plaquetas por via umbilical, o que impedia o colo.

O tempo que o Matheus permaneceu na UTI foi uma experiência de vida.  Não bastasse as incertezas, ainda tínhamos as dificuldades do idioma e a distância da família e dos amigos. Os 27 dias dele na UTI  pareceram uma eternidade. Toda sexta-feira havia uma reunião formal com a equipe médica afim de nos atualizarem sobre a situação dele. Logo na primeira reunião anunciaram o resultado da ressonância magnética – Matheus havia nascido com hidrocefalia (descobriu-se depois que o problema foi em decorrência da incompatibilidade plaquetária em mim e o Marcos). Nosso mundo desabou!

Não bastasse a notícia, a equipe ainda nos indagou sobre as tentativas de reanimação caso ele sofresse parada respiratória ( o máximo são 4  e optamos por elas, mas nunca foi preciso porque ele sempre foi valente). Pior do que isso, a médica informou que poderíamos desistir da vida dele (sim, essa prática é permitida no Canadá). Nossa recusa foi em alto e bom tom!

Os dias seguiram lentamente, mas ele já podia estar em nossos braços e isso nos confortava! Além disso, nos alegrávamos com suas vitórias diárias – nada de medicação, hemorragias contidas, fim das transfusões e estabilidade das plaquetas, ganho de peso, sucção normal, sono regulado e muita travessura! Cada nova manhã uma novidade, um dia ele estava de luva porque arrancava os fios da monitoração e oxigênio, no outro estava com duas luvas amarradas com fita crepe pelo mesmo motivo…

O ambiente de hospital é horrível, mas o fato de podermos estar com ele o tempo todo foi algo maravilhoso. Aprendemos a trocar fraldas e roupas dentro da incubadora ou do mini berço. A organização dos fios de monitoração tornou-se algo fácil e rotineiro. Checar temperatura, repassar para a enfermeira  a quantidade de leite e os horários das mamadas eram as nossas tarefas. Também podíamos conversar com ele, cantar, brincar e estimular com os materiais fornecidos pelo hospital. Foram 27 dias de felizes amanhecer e tristes anoitecer. Voltar para casa sem ele era torturante.

Após os 27 dias de UTI neonatal, Matheus foi para um quarto e nós conseguimos exercer nosso papel de pais 24 horas por dia! Foram dois dias de monitoração até a alta.

Os primeiros meses em casa foram exaustivos. Matheus teve cólicas e chorava muito durante a madrugada. Além disso, ele precisou voltar ao hospital para fazer a cirurgia de colocação do shunt, a válvula que drena o licor do cérebro. O procedimento foi feito do Sick Kids Hospital em Toronto, sob a coordenação do Dr. Dirks. A cirurgia foi um sucesso e não houve nenhuma intercorrência.

Após isso,Matheus iniciou o acompanhamento com uma equipe multidisciplinar composta por médicos, fisioterapeutas, TO e fonoaudióloga.

Jamais imaginamos que nosso filho teria alguma deficiência. Em nenhum momento nos preparamos para isso, logo, o impacto da descoberta foi grande e devastador.  Sempre cremos no Deus do impossível e colocamos a vida do Matheus nas mãos do Senhor. Ele tem feito infinitamente mais do que imaginamos  e a cada dia temos vitórias e lindas experiências.

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Imagem de arquivo pessoal.

_MG_0059Imagem de arquivo pessoal.

Fácil? Não é! Mas a vida segue…